Caros irmãos e irmãs, a liturgia de hoje nos ajuda a perceber algo muito concreto da nossa vida de fé: onde colocamos Deus e como nos aproximamos d’Ele. Na primeira leitura, Salomão faz tudo com muito cuidado. Convoca o povo, prepara a celebração, leva a arca para o lugar mais sagrado do templo. É um esforço bonito, sincero, para oferecer a Deus o melhor. Mas o ponto central não é a organização nem o templo em si. Quando tudo está pronto, a nuvem enche o templo e os sacerdotes já não conseguem continuar. É como se Deus dissesse: “Eu estou aqui, mas não sou controlável”. Ele aceita a casa que o ser humano constrói, mas não cabe nela.
Isso toca direto a nossa vida. Quantas vezes tentamos “organizar” Deus? Colocá-lo dentro dos nossos horários, das nossas certezas, das nossas ideias prontas. A nuvem lembra que Deus é presença, mas também mistério. Ele se deixa encontrar, mas não se deixa dominar. E isso, muitas vezes, nos tira do conforto.
No Evangelho, tudo muda de cenário. Não há templo, nem solenidade. Jesus está no meio do povo, andando, passando. E as pessoas não pedem grandes coisas: querem apenas tocar na barra da sua veste. Um gesto simples, quase silencioso, mas cheio de confiança. E é suficiente. Quem toca, é curado. Aqui a fé aparece sem enfeite, sem discurso, do jeito que dá. É a fé de quem sabe que precisa e se aproxima.
Essa Palavra nos lembra que Deus não está só no lugar sagrado e bem organizado, mas também no meio da vida real, com suas feridas e urgências. Ele está no templo cheio de nuvem, mas também na estrada poeirenta onde alguém estende a mão.
No fundo, a liturgia de hoje nos provoca a unir essas duas coisas: o cuidado em preparar um lugar para Deus e a humildade de reconhecer que Ele sempre vai além. Deus não é propriedade nossa. Ele passa, toca, cura, surpreende. E a pergunta que fica é simples e direta: estamos tentando controlar Deus ou temos coragem de apenas nos aproximar d’Ele, como estamos, e tocá-lo com fé?
Deus nos abençoe e nos guarde!
Seminarista Mirosmar Gonçalves