Essa liturgia de hoje mexe com algo muito sensível da nossa fé: a diferença entre viver uma relação com Deus e apenas cumprir costumes religiosos. Na primeira leitura, Salomão faz uma oração belíssima. Ele reconhece a grandeza de Deus e, ao mesmo tempo, a própria limitação humana. Diz algo muito verdadeiro: “Será que Deus pode realmente morar sobre a terra?” Nem o céu consegue conter Deus, quanto mais um templo feito por mãos humanas. E, mesmo assim, Salomão pede: “Escuta o teu povo quando aqui rezar”. Ou seja, o templo não é uma prisão para Deus, mas um lugar de encontro, um espaço onde o coração humano aprende a se voltar para Ele.
O Salmo continua nessa mesma linha: fala do desejo, da saudade, do coração que anseia pela casa do Senhor. Não é obrigação, é amor. Não é medo, é alegria. Um só dia na presença de Deus vale mais que qualquer outra segurança. Aqui fica claro: o que torna a casa de Deus “amável” não são as paredes, mas o coração que entra ali com verdade.
Aí vem o Evangelho e Jesus joga luz onde dói. Os fariseus estão preocupados com mãos lavadas, copos limpos, regras seguidas à risca. Tudo isso fazia parte da tradição religiosa do povo, e não era algo mau em si. O problema é quando a tradição vira mais importante que o mandamento de Deus. Quando o exterior está impecável, mas o coração está longe. Jesus é direto e duro: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.”
E aqui a Palavra nos alcança sem pedir licença. Porque também nós corremos esse risco. O risco de cumprir ritos, horários, normas, costumes… e, ao mesmo tempo, endurecer o coração. De rezar bonito, mas não amar de verdade. De defender tradições, mas esquecer pessoas. De justificar práticas religiosas enquanto se foge da responsabilidade, da misericórdia, do cuidado concreto com o outro.
A liturgia de hoje nos lembra que Deus não quer apenas gestos corretos, mas corações disponíveis. Ele não rejeita o templo, nem a tradição, nem a lei: rejeita quando tudo isso vira máscara. Deus quer morar onde o coração é sincero, onde a fé se transforma em vida, onde a oração não serve para fugir do mundo, mas para aprender a amar melhor dentro dele. No fim das contas, a pergunta que fica ecoando é simples e exigente: o que tem guiado a nossa fé, o mandamento de Deus ou apenas o costume?
Hoje celebramos Santa Escolástica. Foi uma mulher profundamente enraizada em Deus, que viveu uma fé simples, mas intensa, marcada pela escuta, pela oração e pelo amor. Irmã de São Bento, ela não fundou sua santidade em feitos grandiosos aos olhos do mundo, mas numa intimidade constante com o Senhor, capaz até de “vencer” o próprio irmão quando pediu, em oração, que Deus prolongasse o encontro entre eles. Sua vida nos mostra que a verdadeira força espiritual não está na rigidez das regras, mas na confiança total em Deus e na primazia do amor. Escolástica ensina que quem reza com o coração acaba tocando o coração de Deus, e que, diante do amor, até a disciplina mais santa precisa aprender a escutar.
Deus nos abençoe e nos guarde!
Seminarista Mirosmar Gonçalves.